A nova onda virtual

2 de março de 2006 · Imprimir este artigo

Por: Kariny Gravitol
Um passo à frente dos blogs, os podcasts são programetes de áudio baixados da internet e ouvidos hoje por quase 5 milhões de pessoas no mundo
Podcast foi a palavra do ano de 2005, segundo o “New Oxford American Dictionary”, e promete ser a grande mania da internet em 2006. Trata-se da gravação digital de um arquivo sonoro (como um programa de rádio), que depois é oferecido na rede para que os interessados façam download e ouçam em seu tocador MP3, como o iPod, ou no próprio computador. Os temas são os mais variados: de comentários políticos a piadas, de dicas de tecnologia às últimas tendências da moda. Tem turma para todo mundo. Fácil de entender, portanto, porque a nova onda está roubando a popularidade dos blogs, os diários virtuais: a audiência dos podcasts passou de 820 mil internautas, em 2004, para 4,8 milhões, de acordo com a Bridge Ratings, empresa americana de pesquisa. No Brasil, o público ainda é magro e há apenas algumas dezenas de produtores na ativa. Mas já se estima que, até o final deste ano, serão 300 mil podcasts nacionais. Até 2009, devem chegar a 13 milhões.

 ”Os podcasts estão recriando o jeito de fazer rádio”, afirma Alex Primo, coordenador do Laboratório de Interação Mediada por Computador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Sai a locução acelerada das FMs, para dar lugar a um bate-papo mais descontraído.” As amigas paulistas Alessandra Marfisa, de 33 anos, e Mila Jun, 34, ambas especialistas em tecnologia da informação, desenvolveram o “Elaspod”. “Queríamos fazer uma brincadeira: elas podem fazer podcast. Elas podem participar. Elas podem tudo!”, diz Alessandra. A idéia surgiu de uma conversa que as duas travavam por VoIP, tecnologia de comunicação por voz na internet, como o Skype. “Decidimos gravar nosso bate-papo, e assim surgiu o programa”, conta Mila.

 A dupla está sempre em busca de mulheres bacanas para entrevistar e de maneiras para tornar cada vez mais feminino o papo sobre tecnologia. “Fazemos a coisa de um jeito bem informal”, diz Mila. “No segundo programa, eu até comento sobre meu cabelo.” Não poderia haver toque mais feminino no meio de uma conversa sobre segurança na internet.

 

 “VICIANTE”

 Apesar de a grande maioria de podcasters (os produtores dos programas digitais) ser homem, as mulheres estão mesmo conquistando espaço nessa onda. “Pra mim, podcast não tem gênero”, diz a assistente administrativa carioca Aline Rodrigues, de 28 anos, que faz um podcast em grande parte dedicado à Fórmula 1. “Quer coisa mais masculina do que falar de Fórmula 1? E o meu pod é o único do Brasil que aborda o assunto.” Outra grande paixão de Aline que foi parar no seu programa é a música latina. “Eu conheci fuçando a internet quando fui estudar espanhol”, conta. “Agora quero dividir o que eu encontrei com os outros.” Compartilhar seus interesses transformou a carioca em um sucesso.

 Sua página recebe por dia de 20 a 30 acessos para baixar os arquivos de a?dio. Não por acaso, parar com a nova mania nem passa pela cabeça da assistente administrativa. “Fazer podcast é viciante.”

 Outra que contraria a máxima de que tecnologia é coisa da qual mulher passa longe é a curitibana Bia Kunze, de 30 anos, que não apenas é ouvinte contumaz de programas digitais - até destina um dos quatro gigabytes disponíveis em seu tocador de MP3 portátil somente para esse tipo de arquivo - como produz seu próprio podcast, o “Pod Sem Fio”. Dentista, Bia Kunze começou a se interessar por tecnologia quando ganhou de presente um PDA (computador portátil). De posse do brinquedo novo, decidiu fuçar na internet programas que pudessem ajudá-la na profissão. Acabou topando com o mundo dos podcasts e se tornando uma especialista em tecnologia sem fio.

 Seu programa é totalmente gravado e editado no celular e no PDA, muitas vezes dentro do carro, quando está parada no tr‚Äönsito. Cada vez que uma nova edição entra no ar, ela diz que recebe cerca de mil e-mails com comentários e sugestões. “O que mais estimula a continuar gravando é essa interação com os ouvintes”, afirma Bia, que por sua vez é viciada nos podcasts da série de TV americana “Lost”, a primeira a ter um programa digital oficial, para, por exemplo, divulgar novos episódios.

 

 ”Uma grande diferença do podcast para o blog é que as emissoras rapidamente perceberam no primeiro um bom potencial comercial”, diz Alex Primo. As principais rádios e redes de televisão do mundo já oferecem sua programação em podcast. Vários sites de jornais e revistas contam com podcasts de seus articulistas, comentaristas ou entrevistados.

 

 MIL E UMA UTILIDADES

 Mas não apenas os meios de comunicação detectaram o potencial da nova tecnologia. Nos Estados Unidos, padres produzem godcasts (god, em inglês, significa Deus), e políticos, como a senadora Hillary Clinton, jogam na rede seus discursos usando essa ferramenta. Em janeiro, o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, também adotou os podcasts como meio de divulgação. Até como material pedagógico eles estão sendo usados. “Durante a feira de ciências do Paraná, um grupo de crianças de escola pública fez assim a cobertura online do evento”, conta Eziquiel Menta, especialista em tecnologias da educação, convidado pelo Ministério da Educação para ensinar podcast para 10 mil professores da rede pública. Menta já havia produzido uma radionovela com seus alunos, utilizando o podcast. “As possibilidades são enormes”, diz.

 

 Como virar ouvinte

 Quem não tem um tocador de MP3 portátil pode desfrutar a novidade em seu computador mesmo, com um programa que reproduza arquivos de áudio, como o Real Player ou o Winamp. Para começar, é preciso instalar um programa agregador de RSS, um sistema de distribuição de arquivos que permite o download automático de todos os seus podcasts preferidos, como o iTunes ou o iPodder (confira a lista completa em nosso site). Ele será capaz de ler os endereços XML, uma linguagem parecida com o HTML dos sites comuns, mas que permite verificar atualizações constantemente. Com o programa instalado, é só visitar os diretórios de podcast disponíveis na rede, escolher os que deseja e fazer a assinatura, inserindo o endereço XML no seu agregador. Depois, é só abrir o arquivo com o tocador de MP3 de seu computador.

 

Bia Kunze
Dos dois lados: além de ouvinte, a dentista Bia Kunze produz seu próprio programa, o “Pod Sem Fio”

 


“Podcast não tem gênero. Quer coisa mais masculina do que falar de Fórmula 1?”

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